Fundamentos epistemológicos

Descubra as ideias centrais de aproximação, tendência e infinito
que sustentam o conceito de limite e por que essas ideias representam
tanto um apoio quanto um desafio à sua compreensão.

Seção 01

Fundamentos epistemológicos

 
Compreender o conceito de limite é como desvendar as camadas de uma ideia que parece simples, mas guarda desafios profundos. Um dos pilares fundamentais é a noção de aproximação, que descreve o comportamento de uma função nas vizinhanças de um ponto, mesmo que ela não esteja definita exatamente nesse ponto.

 Considere a função:

\[
f(x) = \frac{x^2 – 1}{x – 1}
\]


Essa função é indeterminada em \( x = 1 \), pois resulta em:

\[
f(1) = \frac{1^2 – 1}{1 – 1} = \frac{0}{0}
\]

 
No entanto, ao simplificar a expressão, obtemos:

\[
f(x) = x + 1, \quad \text{com exceção de } x = 1
\]

 
Essa função se comporta como a reta \( y = x + 1 \), mas com um “furo” em \( x = 1 \). Visualmente, essa ausência de definição no ponto gera um gráfico contínuo com um ponto removido, como mostrado no gráfico abaixo.

Representação gráfica
Representação tabular
\( x \)
\[ f(x) = \frac{x^2 - 1}{x - 1} \]
0,9
1,9
0,99
1,99
0,999
1,999
1,001
2,001
1,01
2,01
1,1
2,1


Essa situação mostra que, embora \( f(1) \) não esteja definida, os valores de \( f(x) \) se aproximam de 2 à medida que \( x \) se aproxima de 1. Isso nos leva ao segundo pilar: a tendência.

A expressão “tende a”, comum na linguagem cotidiana — como em “a temperatura tende a cair” — pode ser ambígua. No Cálculo, porém, ela assume um significado preciso e regular: descreve o comportamento de uma função conforme \( x \) se aproxima de um valor específico.

Em termos matemáticos:

\[
\lim_{x \to 1} \frac{x^2 – 1}{x – 1} = 2
\]

 

Essa ideia pode ser observada graficamente, deduzida por meio de expressões algébricas, ou identificada em tabelas numéricas, como as apresentadas anteriormente. A noção de tendência é, portanto, uma forma dinâmica de descrever a regularidade do comportamento funcional.

A terceira ideia central — e talvez a mais abstrata — é o infinito. Termos como “infinitamente pequeno” ou “tende ao infinito” não devem ser confundidos com números muito grandes ou muito pequenos. No contexto dos limites, o infinito não é um número, mas uma forma de descrever comportamentos que não se encerram.

Por exemplo:

  • \( x \to \infty \) indica que \( x \) cresce indefinidamente;
  • \( f(x) \to \infty \)) significa que os valores de \( f(x) \) aumentam sem limite superior;
  • \( f(x) \to 0 \) quando \( x \to \infty \) descreve aproximação indefinida a zero.

Esse tipo de raciocínio exige superar a intuição cotidiana. Cornu (2002) observa que o limite é um conceito paradoxal: envolve um processo infinito que conduz a um valor finito — o que desafia o modo comum de pensar e exige um esforço cognitivo adicional.

Para lidar com as ambiguidades das noções intuitivas, a matemática introduz a definição formal com base nos quantificadores \( \varepsilon \) (épsilon) e \( \delta \) (delta):

\( \lim_{x \to a} f(x) = L \iff \forall \varepsilon > 0, \exists \delta > 0 \) tal que, se \( 0 < |x – a| < \delta \), então \( |f(x) – L| < \varepsilon \)

 

Em outras palavras, pode-se garantir que os valores de \( f(x) \) fiquem tão próximos quanto se deseje de \( L \), desde que \( x \) esteja suficientemente próximo de \( a \) (mas sem ser exatamente igual a esse valor).

Essa definição é poderosa, porém complexa, pois exige que o estudante compreenda relações lógicas e use raciocínios condicionais com quantificadores matemáticos.

Essa definição é essencial para os fundamentos do Cálculo, mas impõe desafios, pois requer compreensão de relações condicionais, quantificadores lógicos e uma interpretação não trivial do comportamento das funções.

As ideias de aproximação, tendência e infinito constituem a base epistemológica do conceito de limite. Elas são, ao mesmo tempo, instrumentos poderosos para compreender o comportamento das funções e fontes de dificuldades cognitivas. Superar essas dificuldades requer um trabalho articulado entre a intuição, a linguagem formal e as representações visuais e simbólicas.

 
Referência

CORNU, Bernard. Limits.In: TALL, David (org.). Advanced Mathematical Thinking. New York: Kluwer Academic Publishers, 2002, p. 153-198.

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